Drácula: a casa ideal para um velho vampiro

 

uma antiga casa gótica e antiguada e soturna e escura em londres, em uma paisagem bucólica com colinas e montanhas distantes, cercadas por florestas, noite de luar com névoa subindo do rio, morcegos voando, drácula

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"Fico feliz por ser antiquada e espaçosa. Venho de uma família muito antigo e morar em uma casa moderna seria a morte para mim. Uma casa não se torna seu lar em apenas um dia e são necessários vários deles para compor um século. Agrada-me também que possua uma velha capela. Nós, nobres da Transilvânia, não gostamos de imaginar que nossos restos mortais serão dispostos em meio aos mortos comuns. Não busco diversão ou distração, nem o prazer fulgurante do sol ou o brilho cintilante das águas que agradam os mais jovens e bem-humorados. Não sou mais jovem e meu coração, após exaustivos anos de luto pelos mortos, não pulsa mais com alegria. Os muros do meu castelo estão destruídos, vivo cercado por múltiplas sombras e o vento sopra gélido pelas ameias e janelas quebradas. Gosto da penumbra, gosto da atmosfera sombria e desejo, sempre que possível, ficar a sós com meus pensamentos."Drácula de Bram Stoker

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Estou avançando devagar na minha leitura de Drácula, de Bram Stoker. Em parte devido aos dias (e noites) agitados que tenho tido, cheios de afazeres por vezes exaustivos e também divertidos. Mas não se trata apenas disso. Essa é uma daquelas leituras que exigem mais da nossa atenção e envolvimento. Não é o tipo de texto que se escreve imitando técnicas de elaboração de roteiro para um filme (método literário que eu abomino) e que após alguns floreios se chama de romance e que é composto em grande parte por cenas de ação com pouquissmas descrições, introspecções e devaneios. Não. Drácula foi escrito à moda antiga e o autor parece ter tido toda a liberdade para construir seu enredo vampiresco e colocar ali tudo o que a sua imaginação pedia.

Bom, ao menos estas são as minhas impressões. Não sou critico literário e nem critico de coisa alguma... Pelo menos, não crítico profissional. Me limito a dar opiniões, porém ciente de minhas limitações e aberto às opiniões e visões alheias.

Voltando ao Drácula, me deparei com a frase acima, a qual destaco nesse post (nessa página do meu Caderno de Referências virtual). E destaco essa frase com enorme prazer. É raro, mas acontece de nos depararmos com determinadas sentenças com as quais nos identificamos por um motivo qualquer, seja esse motivo objetivo e claro ou subjetivo e obscuro. Por isso aproveito para divagar um pouco a esse respeito...

É o caso com a frase em questão. Há nela um "algo" com o qual me identifico e assim que percebo meu estado de espírito na maior parte do tempo (com algumas excessões, é claro).

Sempre preferi construções antigas. Talvez seja bobagem minha pensar que isso seja algo peculiar e na verdade a maioria das pessoas prefira exatamente as construções antigas... Talvez, mas creio que não. A maioria das pessoas prefere o conforto e a "sofisticação" do moderno e contemporâneo, seja no que diz respeito às suas moradias (quando podem escolher onde querem morar, o que é algo raro devido à óbvia desigualdade social da sociedade em que vivemos). Eu sempre me imaginei morando no campo, em uma construção antiga, com porões, sótãos e se possível (estou apenas sonhando, não é mesmo?) torres, um andar destinado à biblioteca, um pátio para os meus exercícios (com pesos, espadas, arcos e o que mais eu desejasse neste àmbito), quartos (vários deles, para hospedar a família e amigos próximos; que aliás, são poucos), entre outros ambientes dignos de uma vida contemplativa, como uma grande varanda com vista para as colinas e a mata em volta e de onde seja possível ver as estrelas e a lua à noite, etc... Se essa construção fosse de pedra e possuísse uma arquitetura gótica ou simplesmente tivesse um aspecto áustero e suficientemente campestre eu estaria satisfeito. Claro, o terreno em volta dessa construção deveria ser grande, suficientemente grande para que eu me sentisse isolado do mundo.

Mas não é neste trecho que eu mais me identifiquei com a frase. Muitos optariam por morar em um lugar assim (desde que fossem ricos para bancar tal moradia: o que não é o meu caso e o da maioria das pessoas).

Eu me identifiquei de fato é com os demais aspectos da frase desse vampiro emblemático. Sobretudo no final: Gosto da penumbra, gosto da atmosfera sombria e desejo, sempre que possível, ficar a sós com meus pensamentos.

Acho que eu sempre fui assim: uma pessoa mais introspectiva, que aprecia a solidão e tudo o mais. Porém, quando mais jovem, eu preferia os dias ensolarados e as estações quentes. Hoje, apesar de eu não desgostar dos dias ensolarados e estações quentes, eu adquire um apego pelo frio, pela noite e pelo crepúsculo (que é o momento ideal para um passeio).

É difícil explicar certos aspectos da nossa personalidade. Eu já me peguei pensando "porque afinal eu sou assim?". Não porque eu não gosto de como eu sou ou porque tenho preocupações sobre o que eu sou, mas simplesmente porque gosto de compreender os fenômenos... Ou melhor, querer compreender os fenômenos psiquicos é muita presunção. Eu simplesmente gosto de questionar e filosofar sobre os fenômenos psiquicos que compõe a nossa personalidade... Ou eu deveria dizer "personalidades", visto que somos obrigados a criar máscaras sociais para conseguir lidarmos com os diversos ambientes sociais os quais somos obrigados a visitar diariamente.

Enfim. Destaco essa frase, que talvez resuma muito bem quem é Drácula, um sujeito com uma alma velha, que se tornou introspectivo e apegado aos ambientes soturnos, porque os ambientes em que preferimos habitar são na verdade um reflexo da nossa personalidade.

Acredito que esse seja, também, o ponto alto da minha reflexão a respeito dessa frase: os ambientes em que preferimos habitar e as residências (moradas, lares, etc) que optaríamos possuir são um reflexo de quem somos por dentro.

uma antiga casa gótica e antiguada e soturna e escura em londres, em uma paisagem bucólica com colinas e montanhas distantes, cercadas por florestas, noite de luar com névoa subindo do rio, morcegos voando, drácula


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Éder S.P.V. Gonçalves
Osasco, SP, Brazil
É um ficcionista trevoso; escreve poema, romance e também conto. Mescla tom sério com humor ao falar sobre fantasia, mistério e terror. Mantém um blog onde posta textos por vezes sombrios e temperados com ácido humor.

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