O Incêndio da Memória: Por que o Brasil Vive à Mercê do Passado?
O Incêndio da Memória: Por que a Humanidade Insiste em Viver na Sombra?
É surpreendente como os humanos esquecem rápido o seu passado. Viajante, se você caminha pelas sendas ermas da história sem uma lanterna, está fadado a cair no mesmo precipício que seus antepassados. Como bem disse Johann Goethe:
"Quem, de três milênios, não é capaz de se dar conta, vive na ignorância, na sombra, à mercê dos dias, do tempo..."
Ora, quem desconhece seu passado vive exatamente assim: à mercê.
Sempre que o fogo consome um pergaminho ou uma estátua, não é apenas matéria que se esvai; é um pedaço da alma coletiva que é entregue ao vazio. Quando Alexandria queimou, a Humanidade ficou mais à mercê. Quando a guerra na Síria destruiu parte de suas relíquias históricas, ficamos mais cegos.
Sempre que queimamos o nosso passado, o nosso futuro torna-se mais sombrio, pois passamos a olhar para a frente cada vez mais ignorantes, como soldados marchando para uma batalha cujas táticas o inimigo já usou mil vezes contra nós.
A Tragédia Brasileira: Guerra Contra Si Mesmo
Há um aspecto ainda mais sinistro nesta sucessão de cinzas. A Biblioteca de Alexandria foi, segundo suspeitas de arqueólogos, destruída em conflitos de conquista. As peças Sírias foram vítimas do caos explícito da guerra.
Mas e o Museu Nacional no Rio de Janeiro? Que grande calamidade o Brasil pode apontar como desculpa para este crime contra a Humanidade? Não houve invasores bárbaros, não houve bombardeios estrangeiros. Houve algo pior: o cupim da negligência e o fogo do descaso.
Num primeiro momento, pensei: "Que absurdo, sequer estamos em guerra e veja o que fazemos a nós mesmos...". Mas a verdade é mais ácida. O Brasil está, sim, em guerra. Uma guerra silenciosa, travada contra a própria identidade. Vivemos uma crise de valores onde o "novo" é adorado e o "antigo" é visto como entulho. O resultado? Uma nação que não sabe quem é, e por isso, aceita qualquer mestre que lhe prometa um norte.
O Arcanismo do Esquecimento: O Povo-Fantasma
Na fantasia sombria, um espírito que esquece quem foi torna-se uma assombração perigosa, um vulto sem propósito que apenas consome o que encontra. Quando uma sociedade permite que seus museus queimem, ela se torna um Povo-Fantasma.
O esquecimento é uma ferramenta de controle. Sem história, não há comparação. Sem comparação, qualquer tirania parece novidade e qualquer erro parece inevitável. Ao perder o Museu Nacional, perdemos o registro de que já fomos grandes, de que já fomos diferentes, de que já fomos.
À Espera do Próximo Incêndio
A ignorância é uma chama que não precisa de combustível externo; ela queima de dentro para fora. Enquanto tratarmos a cultura como um luxo descartável e a história como um fardo, continuaremos a ver nossas bibliotecas — físicas e mentais — virarem fumaça.
O passado não é um lugar para morar, mas é o único mapa que temos para atravessar o deserto do presente. Sem ele, somos apenas nômades perdidos em uma tempestade de areia, esperando que o próximo incêndio nos leve o que restou da visão.

Comentários
Postar um comentário