A força da alcatéia é o lobo: divagações em um dia cinzento

 

Uma alcatéia de lobos celestiais ataca um colossal Dragão Marinho que dá a volta ao mundo em um abraço sufocante como o de uma titânica anaconda com chifres, libertando o mundo do gigantesco e autoritário dragão marinho maligno. Lobos benevolentes, Dragão maligno do mar. Arte fantástica com cores dramáticas

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"O Homem é o Lobo do Homem" — Titus Maccius Plautus (254 a.C-184 a.C.)

Escrevo esse texto em uma bela manhã; cinzenta, fria e úmida como não se via por aqui na região do Sudeste do Brasil há tempos. Meu espírito também está um pouco cinzento hoje, e um pouco frio e estou me deixando levar por divagações filosóficas sem propósito específico. E que assim seja: nem tudo precisa ter propósito.

O clima está mudado (apesar de uma orda de negacionistas proclamarem que as mudanças climáticas não existem ou que não são culpa da humanidade), a natureza está mudando — em um ritmo assustador. No final do último ano tivemos um verão turbulento; calor extrema e tempestades que causaram vários apagões na distribuíção de energia aqui no Sudeste brasileiro (situação agravada pela privatização da distribuição de energia elétrica, em que o Estado colocou a importante e estratégica função de distribuir energia elétrica nas mãos de uma empresa privada bastante incompetente para cumprir essa função).

Apesar de tudo eu não gosto de usar um tom fatalista: a natureza vai mudar e o planeta terá algumas febres, às quais visam combater infecções virais (como a proclamada pelo agente Smith em Matrix) e em algum momento tudo voltará ao normal; ou pelo menos a um estado de equilíbrio. Eu não gosto de pensar nas coisas em um tom fatalista simplesmente porque eu torço pela Mãe Natureza e rogo aos seus Espíritos Selvagens que coloquem as pessoas em seus devidos lugares.

A natureza é mais selvagem e terrível do que a arrogância humana é capaz de racionalizar e isso poderá ser a ruína da humanidade ou pelo menos a ruína do atual modo de vida da humanidade. Isso não é necessáriamente algo ruim: um dos perpétuos diz desde sempre que, para construir algo novo, é preciso destruir algo velho. E os velhos hábitos humanos precisam ser destruídos, em prol de hábitos melhores e mais saudáveis (para todos).

O inverno ainda não veio, mas está a caminho. Embora as previsões sejam de um inverno ameno por estas bandas do mundo, o clima tem sido severo, em todos os lugares. O Outono nem bem terminou e um dos estados do Brasil foi praticamente engolido por um verdadeiro dilúvio em plena estação das frutas: uma prova da arrogância humana, das mudanças climáticas e da negligência e incompetência de um "governo" para aquilo que deveria ser sua prioridade máxima: o povo. Afinal, é para isso que os governos deveriam existir; ao menos na teoria.

Na prática, porém, os "governos" são apenas "sistemas de poder" que servem uma miríade de facções humanas em busca de poder e hegemonia.

Com isso, o povo dificilmente será prioridade; a menos que as pessoas resolvam tomar o poder para si e entrar nessa disputa por poder e hegemonia. Afinal, nenhum herói altruísta surgirá do atual sistema e mesmo que surja, será repelido com todas as forças pelo próprio sistema.

Por outro lado, fico aqui pensando que tipo de criatura surgira de um povo como o nosso, caso este escolhesse tomar para si o poder que possui. Afinal, essas pessoas possuem condições de definir ideais nobres para si próprios e para o futuro? E como poderiam tomar esse poder para si?

Não me atrevo a responder. Porém, ao menos ouso conjecturar que a velha máxima de que o povo precisa de educação volta a tona: é preciso que o povo estude, aprenda e evolua mentalmente. Não falo sobre aprender matemática e português, ou a manusear ferramentas, computadores e quaisquer que sejam os instrumentos necessários para exercerem os mais diversos oficios como operários e trabalhadores administrativos. Não. Estas coisas todas são úteis para que esse maquinário monetário chamado econômia não para nunca de funcionar, mas não servem à alma do povo.

O tipo de educação de que o povo precisa começa na filosofia, no questionamento ininterrupto sobre tudo o que cerca uma pessoa, sobre as verdades e mentiras e sobre as ideias que tornam verdades em mentiras e mentiras em verdades.

Usando das ideias de Thomas Hobbes, gosto de dizer que as pessoas venderam sua alma para o Leviatã, que sufocou sua liberdade para que o próprio Leviatã se mantenha no poder, para todo o sempre. O Leviatã sufoca as pessoas, deixando-as cegas (de deu intelecto) e inaptas em suas funções sociais (o sistema não permite que os integrantes do sistema mudem o próprio sistema no qual estão inseridos).

Mas apesar de ser um monstro com poder aparentemente absoluto, o Leviatã não é nada frente à Mãe Natureza e seu tempo também há de passar, nem que para isso, sua fonte de alimento (as pessoas que engolfa em seu abraço sufocante e autoritário) escasseie ou até se extinga, levando o próprio Leviatã à morte.

Mas eu não acredito que o "Homem é o Lobo do Homem", frase do dramaturgo Titus Maccius Plautus e que foi repetida por Thomas Hobbes em sua obra o Leviatã. Não que o homem não seja o lobo do homem em um sentido que a humanidade não possui predadores naturais além da própria espécie humana. Porém, essa frase tenta "vender" apenas o aspecto negativo da natureza humana, como se essa natureza possuísse apenas um aspecto (julgo que ela deve possuir bem mais que dois aspectos, mas vou me ater apenas a dois: o negativo e o positivo).

Thomas defende a ideia do Leviatã, pois acredita que como a natureza humana é ruim, um mundo em que um Governo ou Estado autoritário e absoluto não exista para proteger as pessoas de si mesmas, em troca de sua liberdade (ele diz parte de sua liberdade, mas eu não vejo como cortar apenas um pouco às asas de um pássaro), o mundo seria bárbaro e selvagem, com os humanos devorando os humanos em guerras sem fim (interessante notar que os Governos fazem as pessoas fazerem isso umas com as outras o tempo todo, seja internamente ou seja na guerra contra outros Governos).

bando de lobos uivando. um bando de lobos espirituais uiva para as estrelas em uma noite fantástica com cores iridescentes enquanto a aurora boreal forma um dragão. alcateia de lobos. arte crepuscular com cores frias
Eu prefiro acreditar em outra frase, que pertence a Lei da Selva; a força da alcatéia é o lobo, e a força do lobo é a alcatéia — Rudyard Kipling. Neste sentido, não se trata da natureza humana ser boa ou má, uma vez que bom e mal são relativos. Antes de tudo o mais trata-se da natureza do poder humano; que é a mesma natureza que reside sobre o poder dos lobos. Neste sentido, o Leviatã está visto de forma equivocada pelas pessoas; que permitem que o poder absoluto seja guiado por uma entidade que só finge representar o interesse dos integrantes do grupo. As pessoas precisam compreender que são elas a fonte desse poder, seja ele exercido pelo Leviatã ou por uma Alcatéia humana em busca da sobrevivência na natureza. 

No fim, eu acredito que as pessoas tem alguma esperança, pois reside em sua natureza a mesma centelha com que a Mãe Natureza dotou todos os seres; e a busca pelo equilíbrio faz parte dessa centelha. Mas, primeiro a humanidade precisará matar seu Leviatã e voltar a formar suas alcatéias, para as quais darão sua força sem, contudo, perder sua liberdade.

Neste caso, eu imagino que o que deve diferir de um governo organizado como uma alcatéia para um organizado como um Leviatã é que no segundo caso, as pessoas apenas possuem a ilusão de ter algum poder, pois o sistema funciona de modo a minar o poder do indivíduo o máximo possível tirando-lhes direitos, educação e não as colocandos como objetivo final do sistema e sim como meras engrenagens e alimento para manter o sistema em funcionamento. No caso do governo organizado como uma alcatéia, as pessoas são o objetivo máximo do governo, de modo que estas possam exercer seu poder de forma igualitária.

Mas acho que já me deixei levar longe demais em minhas divagações por hoje.

Vou ficando por aqui, pois o dia cinzento e frio também está propício para continuar minhas leituras: O inverno está chegando e eu quero começá-lo em Winterfell ou então escrevendo sobre as assombrosas aventuras de uma terra distante, assolado por criaturas sobrenaturais caóticas e imprevisíveis.

bando de lobos uivando. um bando de lobos espirituais uiva para as estrelas em uma noite fantástica com cores iridescentes enquanto a aurora boreal forma um dragão. alcateia de lobos


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