Folclore e Estética: Uma Mina de Ouro para Escritores

Recentemente, deparei-me com uma provocação instigante sobre a "obrigatoriedade" de inserirmos elementos da nossa cultura local em nossas obras literárias. O debate, impulsionado por um vídeo recente, toca em feridas profundas sobre o que significa ser um escritor no Brasil e como lidamos com as nossas raízes e com o mercado que nos cerca.

Uma pintura detalhada de Sword and Sorcery em estilo retro gaming art e risograph de Jurupari, um guerreiro indígena com longos cabelos e um poderoso headdress de penas solares, segurando uma clava que emana uma luz branca e intensa de poder solar na selva densa sob um céu de fogo.
Jurupari: o Senhor da Fúria Solar.

O Peso da Coroa de Louros Nacional

Concordo plenamente com o conselho central: devemos retirar esse "peso" das costas dos autores. Ninguém deve se sentir obrigado a escrever sobre determinado tema por um senso de "dever patriótico". Escritores e escritoras, especialmente os jovens em formação, são produtos do meio em que vivem e das histórias que consomem.

Se muitos buscam refúgio em estéticas estrangeiras, é porque nosso mercado historicamente valoriza o que vem de fora. É uma tendência que herdamos desde o Brasil Império, época em que se preferia a moda francesa a roupas minimamente adequadas ao nosso clima tropical. Qualidade literária e nacionalismo não são sinônimos; uma obra não é boa apenas por ser brasileira, nem ruim por orbitar tropos universais ou estrangeiros. São instâncias distintas.

Entretanto, ao analisar os argumentos que sustentam essa "rejeição" ao nosso folclore, percebi uma armadilha intelectual que precisamos desmontar: a ideia de que a falta de registros escritos antigos torna nossa mitologia "inferior", "menos épica" ou "desconexa".


Assista ao vídeo original:

O Folclore Brasileiro é RUIM para a Fantasia? — Mordua

"O Mito da Obrigatoriedade"

Vídeo original via Canal Mordua. Uma provocação sobre as raízes da fantasia nacional.

No próximo fragmento desta crônica, entraremos no território das sombras para diferenciar o que é Folclore do que é Estética. Vou provar por que o Japão é o exemplo perfeito de que o registro escrito é apenas uma formalização tardia de uma alma que sempre foi oral e mutante.

A Armadilha do Povo Ágrafo

Por outro lado, preciso discordar frontalmente de um argumento comum: o de que o folclore brasileiro tem menos "valor" ou "coesão" por ser de tradição oral. O argumento de que somos "povos ágrafos" é uma armadilha intelectual. O folclore, em sua essência mais pura, é uma tradição oral. O registro, o documento e a formalização são processos posteriores, muitas vezes feitos por motivos que nada têm a ver com a arte da narrativa em si.

Vejamos o exemplo do Japão, tão querido por nós escritores de fantasia. Muito do horror folclórico japonês que hoje consideramos "épico" foi organizado e traduzido para uma estética palatável apenas recentemente por Lafcadio Hearn. Hearn era um estrangeiro naturalizado que decidiu documentar as lendas que sua esposa conhecia para evitar que aquela tradição se perdesse durante a ocidentalização forçada do país.

Já o Kojiki, o arquivo da mitologia "oficial" japonesa, é muito mais antigo, mas nasceu de um projeto imperialista nacionalista que visava copiar a cultura chinesa para criar uma tradição estatal. Ou seja: o folclore e a mitologia não são o registro. O folclore é vivo, é um "ser mutante". A Kombi Azul de Osasco é uma lenda urbana recente, mas faz parte do nosso folclore tanto quanto o Curupira, mesmo que ainda não conste nos livros acadêmicos.

Folclore vs. Estética: O Problema da Roupagem

O que muitos de nós rejeitamos, na verdade, não é o folclore brasileiro em si, mas a estética de Monteiro Lobato. Para quem cresceu consumindo a energia e o visual de animes como Yu Yu Hakusho ou Dragon Ball, a roupagem do Sítio do Pica-pau Amarelo tornou-se intragável.

É fundamental que escritores e escritoras compreendam: a lenda do Saci é um mito rico e sombrio; o Saci do Sítio é apenas uma das muitas estéticas possíveis. Comparem, por exemplo, a abordagem lúdica de Lobato com a abordagem urbana e misteriosa da série Cidade Invisível. O "ouro" é o mesmo, mas a joia lapidada é completamente diferente.

O mesmo acontece com mitologias estrangeiras. Se olharmos para o cinema, temos estéticas que já não chamam a atenção das novas gerações, como os clássicos Jasão e o Velo de Ouro ou A Odisseia dos anos 90. Em contrapartida, vemos o sucesso de roupagens modernas como Fúria de Titãs ou a adaptação literária de Percy Jackson e o Ladrão de Raios. O mito grego não mudou em milênios; o que mudou foi a roupagem estética que o torna palatável para o público atual.

No próximo trecho, mostrarei como ler os "originais" de qualquer cultura pode ser uma tarefa tediosa e por que o segredo não está na origem do mito, mas na coragem do autor em garimpar essa mina inexplorada.

O Choque do Real: O Mito "Puro" vs. A Adaptação

Ler mitos em suas versões originais — sejam eles Gregos, Celtas, Inuit ou Ameríndios — é sempre um choque. A verdade é que as versões "puras" podem parecer "chatas" ou densas demais em comparação às adaptações comerciais modernas. Sejamos honestos: a Ilíada de Homero, no original, não é uma leitura tão fluida ou interessante para o público médio quanto qualquer filme moderno sobre a Guerra de Troia ou a série A Odisseia.

O mesmo ocorre com o nosso folclore. O documento mais notório que temos é o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís Câmara Cascudo. Ler esse dicionário, ou os tratados de folcloristas que garimparam lendas pelos ermos brasileiros, não é mais empolgante do que ler Kwaidan (de Lafcadio Hearn) ou as Eddas nórdicas. Ler o folclore "raiz", o registro bruto, é uma tarefa tediosa e acadêmica em qualquer lugar do mundo.

Vejam este paralelo entre o "invólucro escrito" de diferentes culturas:

  • No Estrangeiro: Trechos de As Mil e Uma Noites ou registros gregos antigos são repletos de repetições e estruturas que serviam à memorização oral, não ao entretenimento ágil.
  • No Brasil: Cartas portuguesas do século XVI já citavam lendas locais, como as "sereias" avistadas na costa de Santos, de forma tão documental e seca quanto um relatório náutico.

A mitologia dos povos ancestrais não "passou". Ela continua viva na tradição oral e nas obras de autores indígenas contemporâneos. O Brasil ainda possui muitas etnias vivas que preservam cosmologias complexas (Guaranis, Yanomamis, entre tantas outras). Temos acesso a uma mitologia ancestral plural, que não é menos interessante que os mitos do xintoísmo japonês ou da mitologia chinesa. Ambos bebem de fontes animistas e da relação profunda com os espíritos da natureza.

A Provocação: Por que Ignoramos o Tesouro?

Por que, então, o Xintoísmo nos parece "épico" e a mitologia Guarani nos parece "distante"? A resposta é política e mercadológica. A falta de exposição desses temas para jovens em idade escolar, somada a um desinteresse político em proteger esse patrimônio, reforça o apagamento. Enquanto isso, o mercado nos entrega produtos comerciais prontos, vindos do estrangeiro, que já passaram pelo filtro da estética moderna.

O problema não é o tema ser chato; é que ele ainda não nos chega com uma roupagem moderna de forma massiva. Temos uma mina de ouro inexplorada nas mãos. Garimpar esse material dá trabalho. Exige pesquisa em dicionários de folclore, em registros antropológicos e na literatura indígena atual. Ninguém é obrigado a fazer esse garimpo, e fazê-lo não garante qualidade automática a uma obra. Mas, para quem se atreve, o tesouro é incalculável.

Escrever sobre uma estética moderna inspirada em mitologia estrangeira é apenas o caminho mais fácil, pois estamos acostumados a consumir essas referências já mastigadas pelo mainstream.

Se você deseja começar esse garimpo, existem fontes fundamentais. No próximo trecho, apresentarei como você pode se informar sobre o nosso folclore e a nossa mitologia ancestral sem cair nas armadilhas da estética infantilizada.

Onde Encontrar o Ouro: Fontes para o Escritor

Se você, escritor ou escritora, sentiu o chamado para explorar essas sombras, saiba que o material está disponível, mas exige olhos de buscador. Não espere que o algoritmo lhe entregue uma mitologia "pronta para o consumo".

A forma mais sólida de se informar sobre o nosso folclore nacional e a mitologia ancestral ameríndia é recorrer aos mestres que dedicaram suas vidas a ouvir as vozes da terra. O trabalho de Luís Câmara Cascudo é o pilar central, mas não pare nele. Busque autores indígenas contemporâneos que estão colocando no papel as cosmologias de seus povos sob suas próprias perspectivas, sem o filtro do colonizador.

Para facilitar sua jornada, eu já cataloguei diversas dessas referências aqui no blog. Convido você a ler o post abaixo, onde detalho livros, tratados e fontes de pesquisa essenciais para quem deseja construir um worldbuilding com raízes brasileiras:

Leia também: Guia de Fontes: Onde pesquisar folclore e mitologia nacional para seus livros.

Conclusão: O Desafio da Roupagem Moderna

Escrever sobre uma estética moderna, inspirada em mitologia estrangeira, não é sinal de qualidade superior; é apenas um caminho mais pavimentado. Para quem consome animes, séries e filmes internacionais diariamente, orbitar essas tradições é natural e mais fácil de executar.

No entanto, o verdadeiro tesouro literário muitas vezes está naquilo que ainda não foi totalmente traduzido para o mainstream. Temos uma mina de ouro inexplorada nas mãos — uma mistura de tradição oral viva, lendas urbanas mutantes e cosmologias ancestrais que em nada perdem para o Xintoísmo ou a mitologia Celta em termos de profundidade e horror.

O problema nunca foi o tema ser "chato", mas sim a nossa falta de coragem em criar novas estéticas para ele. Garimpar dá trabalho. Traduzir o "tedioso" registro acadêmico para uma narrativa vibrante e sombria exige esforço. Mas é exatamente nesse esforço, nesse atrevimento de mergulhar no inexplorado, que nascem as obras que realmente marcam uma época.

Ninguém é obrigado a escrever sobre o Brasil, mas quem se atreve a fazê-lo com olhar de garimpeiro, encontrará riquezas que o mercado estrangeiro jamais poderá replicar.

Ad Astra Per Aspera.

𖤙 Ecos do Abismo

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